Existe uma diferença entre um mercado barato e um mercado em ajuste
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E, é justamente por isso, que outubro foi um mês de dois movimentos opostos.
O Ibovespa abriu o mês perto de 192 mil pontos e, no primeiro pregão depois do primeiro turno das eleições, saltou 7,70%, para 206.912. Foi a maior alta diária em seis anos, com máxima intradiária em torno de 209 mil, recorde histórico. O estrangeiro respondeu: foram R$ 10 bilhões de entrada apenas no dia 5, e o saldo chegou a R$ 20,15 bilhões até o dia 21, o segundo melhor mês do ano para o fluxo, atrás de janeiro. O dólar cedeu de R$ 5,21 para R$ 4,98. O índice chegou a 205 mil na véspera do segundo turno, com ganho de cerca de 7% entre os dois turnos, sendo a alta liderada por papéis sensíveis aos juros longos, como varejo, construção e educação.
A reprecificação, portanto, ocorreu sobre o prêmio de risco, não sobre os lucros
Na última segunda-feira (26), o desfecho eleitoral divergiu do que o mercado precificava. A B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, e o índice fechou a sessão em queda de 13,88% (com mínima intradiária de 17%), enquanto o dólar subiu 8,21%, para cerca de R$ 5,40. O fluxo estrangeiro também virou: saíram R$ 6,8 bilhões líquidos nos pregões de 22, 23 e 26. Pelos dados da B3, o saldo do mês caiu para cerca de R$ 13 bilhões positivos – e esse é o retrato de um investidor que ainda não foi embora, mas deu sinais de inversão.
O argumento a favor é difícil de ignorar
Considerando os dados de consenso da Bloomberg, o Brasil negocia a 7,8x lucros projetados em 12 meses. É o segundo mercado mais barato do universo acompanhado, atrás apenas da Coreia do Sul (3,6x). O índice de emergentes está em 9,0x, o mundo em 15,8x e os Estados Unidos em 18,9x. Ou seja, o Brasil opera com um desconto de cerca de 50% sobre o mundo e de uns 13% sobre os pares emergentes. O ROE brasileiro (18,2%) é ligeiramente superior ao do conjunto emergente (17,0%). A Coreia, em boa medida, é uma história de lucros em forte expansão, que comprimem o múltiplo. O Brasil é diferente: aqui o múltiplo é baixo por desconfiança, refletida nos prêmios de riscos elevados, apesar de alguma resiliência no lucro (com grande contribuição do setor de energia, considerando a alta do petróleo).
Valuation por Região
Valuation dos principais Índices globais
O histórico confirma a distância
O P/L projetado do índice está em torno de 7,8x, abaixo da média de dez anos (10x) e a pouco mais de um desvio da faixa inferior (6,3x). Ele já esteve em 9,3x no início do ano.
Ibovespa (P/L últimos 10 anos)
Em uma análise de sensibilidade, a precificação atual (cerca de 170 mil pontos) corresponde a algo como 8,1x o lucro corrente. Com o lucro de hoje, um retorno aos 9x levaria o índice a 195 mil (+14%), e a média de dez anos a 217 mil (+26%). Mesmo um corte de 12% nos lucros, com os mesmos 9x, o índice estaria na região dos 171,7 mil. O desconto, portanto, dá certa folga mesmo se os balanços decepcionarem.
| P/L esperado | Lucro -12% | Lucro -8% | Lucro -5% | Lucro atual | Lucro +5% | Lucro +8% | Lucro +12% |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 6,0x | 114,485 | 119,689 | 123,592 | 130,097 | 136,602 | 140,505 | 145,709 |
| 6,5x | 124,026 | 129,663 | 133,892 | 140,939 | 147,986 | 152,214 | 157,851 |
| 7,0x | 133,566 | 139,638 | 144,191 | 151,780 | 159,369 | 163,922 | 169,994 |
| 7,5x | 143,107 | 149,612 | 154,490 | 162,621 | 170,752 | 175,631 | 182,136 |
| 8,0x | 152,647 | 159,586 | 164,790 | 173,463 | 182,136 | 187,340 | 194,279 |
| 8,1x | 154,555 | 161,581 | 166,850 | 175,631 | 184,413 | 189,682 | 196,707 |
| 8,5x | 162,188 | 169,560 | 175,089 | 184,304 | 193,519 | 199,048 | 206,421 |
| 9,0x | 171,728 | 179,534 | 185,388 | 195,146 | 204,903 | 210,757 | 218,563 |
O preço de hoje ainda reflete, em nossa opinião, uma maior incerteza em relação à dinâmica dos juros
É nessa aposta que mora o risco, e é por ela que o múltiplo seguirá a depender da curva de juros, não só do lucro.
Vem daí o calendário de novembro. No próximo dia 3 ocorrem as eleições legislativas nos Estados Unidos, com efeito potencial sobre dólar e juros globais. No dia 4, o Copom divulga a decisão e, mais importante, o tom sobre a trajetória. Em paralelo corre a temporada de balanços do terceiro trimestre, que testa a hipótese de lucro estável. Os três eventos mexem nos mesmos eixos: juros longos, prêmio de risco e lucros.
A postura mais coerente é de exposição ao risco, mas escalonado
O ponto de partida são empresas com caixa forte e ROE alto, que sustentam o lucro mesmo com juros altos por mais tempo. Elas são o contrapeso do cenário de lucros mais fracos, enquanto exportadores e dolarizados funcionam como seguro caso a aversão ao risco volte e o estrangeiro acelere a saída. Reforçamos a sugestão de uma postura mais cautelosa, buscando alocação em empresas de fundamentos sólidos e, mais uma vez, boas pagadoras de dividendos.
Para os próximos meses, o caminho do preço depende de duas coisas: do fluxo estrangeiro, que decidirá se a reprecificação é gradual ou abrupta, e da trajetória do juro de longo prazo, que decidirá se o patamar atual é piso ou teto.
Novembro não resolve nenhuma delas, mas ajuda a escolher entre elas
Quem espera clareza total costuma encontrá-la depois que o preço já andou. Quem entra sem nenhuma proteção costuma descobrir o tamanho do risco no pior momento. Entre um extremo e outro, está o investidor com tamanho de posição proporcional à sua convicção.
Se o Brasil está tão barato, e há anos assim, quem é que está de fato precificando o risco: o mercado, ou nós mesmos, que preferimos esperar o conforto de um Ibovespa mais caro?