Publicado em
23/10/2026

Ágora Insights

Estratégia em Ação

Insights sobre investimentos e mercado

Outubro de 2026

Separando o joio do trigo

Estratégia em Ação

Separando o joio do trigo

A temporada de resultados do terceiro trimestre começou na última quarta-feira (21) com a WEG.

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*Imagem gerada com Inteligência ArtificialFonte: Ágora Investimentos

Quem olhar apenas as primeiras divulgações, porém, vai enxergar só uma parte do cenário. Até 30 de outubro, cerca de 20% do peso do índice MSCI Brasil (uma "cesta" que reúne as principais empresas brasileiras e serve de termômetro para investidores estrangeiros) terá aberto os números. A Vale, a primeira gigante, divulga no dia 29. O grosso vem depois: perto de metade do índice só aparece entre 9 e 12 de novembro, com Petrobras, Nubank e BTG Pactual. É como assistir a um campeonato em que os times mais fortes só entram em campo nas rodadas finais.

Quando todos tiverem entrado em campo, o placar agregado deve impressionar. Nossa expectativa é que o lucro das empresas do índice cresça cerca de 30% sobre o mesmo período do ano passado. Mas esse número engana um pouco. Sem as empresas de energia e de matérias-primas, o avanço cai para cerca de 15%. A razão é a Petrobras: com o petróleo mais caro, ela sozinha responde por aproximadamente 16 dos 30 pontos percentuais de crescimento. Já a Vale puxa o resultado na direção oposta, com cerca de 1 ponto a menos. Pense num time em que um único componente joga muito acima do normal: o placar pode até subir, mas não conta a história de todos em campo.

Setores
SETOR3T262T263T25
MSCI Brasil29%32%5%
Energia115%110%-41%
Indústria44%-9%-34%
Serviços de Comunicação27%41%18%
Financeiro24%35%13%
Saúde17%46%96%
Consumo Discricionário-1%-12%35%
Utilities-2%0%-28%
Materiais-5%15%-39%
Consumo Básico-24%4%136%
Excluindo Energia e Materiais15%18%19%
Fonte: Bradesco BBI e Ágora Investimentos

Olhando jogador por jogador, o quadro é bem variado. Os bancos e demais empresas financeiras, que somam mais de um terço do índice, devem crescer cerca de 25%, com destaque para o Nubank (41%). Itaú e Banco do Brasil ficam mais atrás, com altas de 17% e 6%. Indústria (44%), comunicação (27%) e saúde (17%) também devem avançar. No sentido contrário estão as empresas de serviços públicos, como energia elétrica e saneamento (queda de 2%), as de matérias-primas (queda de 5%) e as de bens de consumo básico, como alimentos e bebidas (queda de 24%). Ainda assim, cerca de dois terços das empresas devem registrar lucro maior que o de um ano atrás, o que mostra que o movimento é amplo, e não restrito a poucos nomes.

Há um segundo motivo para não se encantar com a média: acertar a previsão dos analistas é bem mais difícil do que parece.

Nos últimos 16 trimestres, o lucro das empresas superou o esperado em apenas 8, praticamente cara ou coroa. Os extremos ajudam a entender o tamanho da imprevisibilidade: no primeiro trimestre de 2026, o resultado veio 32% acima do projetado; no último trimestre de 2025, ficou 20% abaixo. O mercado de opções, onde investidores pagam para se proteger de oscilações, indica que a reação das ações aos balanços deve ficar em torno de 3% em média. Ela tende a ser maior em saúde (9,9%) e consumo não essencial (6,4%), e mais discreta na indústria (1,7%). Entre as empresas individuais, JBS (11%), Motiva (10,3%) e Rede D'Or (9,9%) são as que o mercado espera ver se mexer mais.

Os resultados superaram as expectativas em apenas 8 das últimas 16 temporadas

Fonte: Bradesco BBI e Ágora Investimentos

Um trimestre misto e seletivo. Entre as seguradoras, a BB Seguridade deve superar em cerca de 5% as projeções, enquanto a Porto Seguro deve ficar cerca de 15% abaixo, pressionada por mais sinistros, ou seja, mais gastos com indenizações. Entre as empresas de telecomunicação, a Vivo deve crescer 17% e a TIM cair 8%. A Raia Drogasil deve ter lucro 3% menor, porque os novos remédios para emagrecimento, mais caros e de menor margem, alteram o mix de vendas das farmácias. O varejo doméstico deve ter um trimestre fraco, mas pesa pouco no índice, a exceção sendo o Mercado Livre, que divulga em 4 de novembro.

Mas o que isso diz sobre o próximo capítulo da bolsa?

Nossa leitura é que o mercado vai deixar de ser conduzido por commodities (produtos como petróleo e minério, cujos preços são definidos no mercado internacional) e passar a premiar a escolha empresa a empresa. Nosso ciclo de lucros, portanto, entra numa fase inicial de desaceleração: energia está no pico, enquanto matérias-primas e consumo já perdem fôlego. A projeção de crescimento de lucros para 2027 é de apenas 2%, abaixo dos cerca de 6% de crescimento nominal da economia. O próximo impulso deve vir das empresas voltadas ao mercado interno, aquelas que mais se beneficiam de juros menores. Cerca de três quartos das ações do índice ganham com esse cenário, e a curva de juros futuros ainda embute taxas cerca de 1,5 ponto percentual acima da nossa projeção de 11% para a Selic (a taxa básica de juros) no fim de 2027.

Há também a questão do preço.

A bolsa brasileira negocia a 9,4 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses. É uma das bolsas mais baratas do mundo, abaixo da média de dez anos (10 vezes). Além disso, os juros longos já recuaram cerca de 1,5 ponto percentual desde o pico de julho, o que reduz o retorno exigido para investir em ações, e isso eleva o valor justo estimado. Nossos cenários apontam potencial de alta de cerca de 40%. Nós brasileiros, porém, destinamos apenas 10% a 12% de nossos investimentos à bolsa, e o retorno desse dinheiro seria mais um combustível.

Ibovespa (P/L)

Fonte: Bloomberg e Ágora Investimentos

Ninguém, claro, vive só de planilha: o calendário político pesa. O segundo turno das eleições é no dia 25 de outubro, e a primeira reunião do Copom (comitê do Banco Central que define os juros) depois do pleito é em 4 de novembro. Depois vêm o anúncio da equipe econômica e, em paralelo, os próprios balanços. O principal risco a monitorar é a credibilidade fiscal, num país com dívida bruta acima de 80% do PIB. Por isso, mantemos uma visão construtiva para a bolsa.

Na prática, a estratégia lembra a de um técnico experiente que não depende de um único jogador. Cerca de 60% das carteiras que sugerimos está em uma frente mais ofensiva: empresas ligadas ao mercado de capitais, estatais em recuperação e setores sensíveis aos juros. O restante é mais defensivo. Existe ainda as empresas menores (Small Caps) negociadas com desconto de cerca de 40% frente às grandes, que podem ter lucro 18% maior em 2027 se os juros caírem 1 ponto percentual.

Também notamos que a mensagem para quem acompanha o setor de varejo é que o número que abrirá os jornais, o do lucro total do índice, dirá menos do que os detalhes de cada empresa. O trimestre deve ser lembrado menos pelo que a média mostrar e mais pelas diferenças entre quem se adaptou ao novo cenário e quem ainda não.

Nesse tipo de temporada, quem presta atenção ao time, e não só ao resultado, costuma enxergar primeiro o que vem pela frente.

Você Sabia?

voce sabia
*Imagem gerada com Inteligência ArtificialFonte: Ágora Investimentos

O "consenso de mercado" é a média (ou mediana) das projeções de analistas de bancos, corretoras e gestoras sobre indicadores como lucro, receita de empresas, inflação, juros ou PIB. Ele é formado por meio de pesquisas periódicas que compilam as estimativas individuais de dezenas de analistas — hoje agregadas por serviços como Bloomberg, Refinitiv/LSEG, FactSet e, no Brasil, o Boletim Focus do Banco Central, que coleta semanalmente as expectativas de mais de 100 instituições. O resultado funciona como uma "régua" coletiva: quando o dado real sai acima ou abaixo do consenso, o mercado reage à surpresa, e não ao número em si.

A ideia tem raízes antigas na "sabedoria das multidões", ilustrada por Francis Galton em 1906, ao notar que a mediana dos palpites de 787 visitantes de uma feira rural sobre o peso de um boi errou por menos de 1%. No mercado financeiro, porém, o marco prático foi o Livingston Survey, criado em 1946 pelo jornalista Joseph Livingston, do Philadelphia Record, considerado a mais antiga pesquisa contínua de expectativas econômicas dos EUA — ainda hoje mantida pelo Fed da Filadélfia. Em 1968, a ASA e o NBER lançaram o Survey of Professional Forecasters, consolidando o formato de consenso macroeconômico.

Para ações, o passo decisivo veio em 1971, quando a corretora Lynch, Jones & Ryan criou o I/B/E/S (Institutional Brokers' Estimate System), o primeiro banco de dados a reunir sistematicamente as estimativas de lucro dos analistas de Wall Street e divulgar sua média. Com a popularização dos terminais eletrônicos nas décadas de 1980 e 1990, a prática de "bater ou não bater o consenso" tornou-se o ritual central das temporadas de balanços — e permanece assim até hoje.

Economia & Research Ágora Investimentos

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Maria Clara W. F. Negrão

Maria Clara W. F. Negrão
Economista, CNPI

Dalton Gardiman

Dalton Gardiman
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Ricardo Faria França

Ricardo Faria França
CNPI – Analista de Investimentos

Renato Cesar Chanes

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CNPI – Analista de Investimentos

Flávia Andrade Meireles

Flávia Andrade Meireles
CNPI – Analista de Investimentos

Larissa Fidelis Monte

Larissa Fidelis Monte
CNPI - Analista de Investimentos

José Ricardo Rosalen Filho

José Ricardo Rosalen Filho
CNPI-P – Analista de Investimentos

Lucas Marquetti, CFA

Lucas Marquetti, CFA
CNPI – Analista de Investimentos

Ernani T. Reis

Ernani T. Reis
CNPI-T – Analista Gráfico
Análise Gráfica

Henrique Procopio Colla

Henrique Procopio Colla
CNPI-P – Analista de Investimentos

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