O mercado de renda fixa iniciou outubro com um movimento relevante de fechamento das taxas nos vértices mais longos da curva de juros, reacendendo o interesse dos investidores por ativos de maior duration. A valorização observada nesses papéis trouxe ganhos importantes de marcação a mercado, especialmente em títulos prefixados e indexados à inflação. Ao mesmo tempo, o avanço dos resgates nos fundos de investimentos de renda fixa mantém no radar um fator de risco importante para os próximos meses: a evolução dos spreads de crédito.
1.1Títulos longos seguem atrativos
A queda das taxas do Tesouro Prefixado 2030 (LTN30), que fechou setembro aos 14,16%, negociado em 21/10 a 12,92% (uma compressão de 124 pontos-base) reacendeu o interesse do mercado por ativos de maior duration. Já para os títulos híbridos vimos um movimento semelhante: o Tesouro IPCA+ 2035 (NTNB35), que fechou setembro em 7,49%, recuou para 6,83%, queda de 66 pontos-base. A pergunta que fica é: será que ainda há espaço para mais ganhos na renda fixa, ou essa onda já passou?
Em nossa visão, sim. Projetamos a Selic em 11,00% para o final de 2027, o que ainda abre margem para um movimento de ajuste em baixa nos juros futuros de magnitude semelhante ao observado nas últimas semanas.
Quando o mercado passa a precificar um cenário de juros estruturalmente mais baixos, os títulos de prazo mais longo tendem a ser os maiores beneficiados. Isso ocorre porque pequenas variações nas taxas produzem impactos mais significativos sobre o valor presente dos fluxos futuros desses ativos. Mas é preciso cautela: quanto maior o prazo, maior a volatilidade do título; em contrapartida, o investidor conta com um poderoso aliado, a convexidade.
Curva NTN-B
Histórico NTN-B — 5, 10 e 15 anos
Curva LTN
Histórico LTN — 5 anos
Fonte: Ágora Investimentos. Curvas de 21/10/2026 e 21/09/2026; histórico de 01/01/2022 a 21/10/2026, última data disponível na base. Os prazos históricos representam 5, 10 e 15 anos para NTN-B e 5 anos para LTN, não vencimentos fixos. Passe o cursor para consultar as taxas, arraste para ampliar e dê duplo clique para restaurar; use a câmera para exportar a imagem.
1.2Convexidade potencializa os ganhos na queda dos juros
Um dos conceitos mais importantes para entender o desempenho recente da renda fixa é a convexidade. Em termos simples, ela mede como a sensibilidade de um título às variações de juros muda conforme as taxas se movimentam.
Na prática, a convexidade gera uma assimetria favorável ao investidor. Quando as taxas caem, o ganho de preço tende a ser maior do que a perda observada em um movimento equivalente de alta dos juros.
Fonte: Ágora Investimentos
Considere um título com duration de cinco anos e meio. Em uma queda de 1 ponto percentual na taxa de juros, a valorização estimada pelo modelo de duration seria próxima de 5,5%. No entanto, ao incorporar o efeito da convexidade, o ganho efetivo pode superar esse percentual (5,7%). O efeito inverso também ocorre quando as taxas sobem: o preço do título cairia menos, 5,3% em vez de 5,5%. Embora haja perda de marcação a mercado, a convexidade atua como um amortecedor, reduzindo parcialmente o impacto negativo.
Premissas utilizadas: aporte de R$ 10.000,00; taxa de 12% a.a.; cupom semestral; prazo de dez anos; duration de 5,5019 e convexidade de 44,9540.
| Taxa do cenário | Mudança (p.p.) | Preço (R$) | Variação linear (R$) | Variação com convexidade (R$) |
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Fonte: Ágora Investimentos.
Se por um lado a queda da curva favorece os preços dos ativos, por outro a desaceleração econômica e as demais condições que afetam os spreads tendem a aumentar a cautela em relação ao crédito corporativo.
1.3Spreads de crédito
Spread CDI+ (%)
Spread IPCA+ (bps)
Fonte: Bradesco BBI e ANBIMA. Passe o cursor para consultar os spreads, arraste para ampliar e dê duplo clique para restaurar; use a câmera para exportar a imagem. Cada painel informa o último dia disponível na respectiva série.
Hoje estamos em um ciclo de queda de juros, depois de um longo período de taxas elevadas. Como os efeitos dos juros altos demoram a aparecer na economia, empresas e consumidores ainda sentem o impacto desse aperto monetário, o que tende a desacelerar a atividade econômica.
Quando o crescimento perde força, os investidores ficam mais cautelosos e passam a exigir um prêmio maior para financiar empresas. É nesse momento que os spreads de crédito costumam subir.
Por isso, é comum vermos dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo: os juros dos títulos públicos caem, mas os spreads corporativos aumentam.
Existe ainda uma característica interessante do mercado de crédito que, à primeira vista, parece contraditória. Quando os spreads se abrem, os títulos que normalmente sofrem mais não são necessariamente os de pior qualidade, mas muitas vezes os de maior rating, como os classificados em AAA e AA.
1.4Títulos de maior qualidade podem oferecer as melhores oportunidades
A explicação está na liquidez. Como esses papéis são os mais negociados do mercado, são também os primeiros a refletir mudanças de humor dos investidores. Em momentos de maior cautela, gestores costumam vender justamente os ativos mais líquidos para ajustar rapidamente suas carteiras. Com isso, os preços desses títulos caem e seus spreads se abrem antes dos demais. Em outras palavras, hoje é possível encontrar empresas de excelente qualidade pagando taxas mais atrativas.
Captação de fundos de crédito ex-infra (R$bi)
Captação de fundos de infraestrutura (R$bi)
Fonte: Bradesco BBI e ANBIMA. Fevereiro de 2025 a outubro de 2026. O valor de outubro não indica mês encerrado. Valores em bilhões de reais. Entradas em verde vivo e saídas em verde escuro. Passe o cursor para consultar os valores; use o zoom e a câmera para exportar a imagem.
Por outro lado, é importante evitar a armadilha de migrar para títulos de menor qualidade apenas porque eles parecem estar oscilando menos. Muitas vezes, esses papéis não apresentam grandes variações de preço simplesmente porque são pouco negociados. A menor liquidez pode transmitir uma sensação de estabilidade que nem sempre reflete o risco real do emissor. Por isso, em um momento de desaceleração econômica, o investidor tende a ser mais bem remunerado ao assumir o risco de mercado de títulos de alta qualidade do que ao aumentar significativamente o risco de crédito em busca de alguns pontos adicionais de retorno.
Conseguimos entender bem a relação de curva de juros com risco de crédito, mas a escolha do papel depende de mais um fator: objetivo pessoal.
1.5O que procurar
Indexadores: como cada título gera retorno
Uma forma simples de entender os diferentes tipos de títulos é pensar em como cada um gera retorno.
Alavancagem: onde está o maior potencial de ganho?
Em momentos de queda dos juros, tanto os títulos prefixados quanto os indexados ao IPCA podem apresentar ganhos relevantes de marcação a mercado. Na prática, a principal diferença está no prazo. Os títulos IPCA+ normalmente possuem vencimentos mais longos e, por isso, tendem a ser mais sensíveis às mudanças nas taxas de juros. É justamente essa característica que faz com que, em ciclos de fechamento da curva, eles frequentemente apresentem um potencial de valorização superior ao dos títulos prefixados. Em compensação, essa mesma sensibilidade pode gerar oscilações maiores ao longo do caminho.
Renda: gerar um maior rendimento agora ou preservar o patrimônio no longo prazo?
Em um exemplo simplificado, comparamos um investimento hipotético de R$ 10 mil, prazo de 10 anos, pagamento de juros semestrais e inflação constante de 4% a.a. A taxa prefixada é de 10,25% a.a. efetivos e a taxa real do IPCA+ é de 5,0625% a.a. efetivos.
O prefixado gera R$ 500,00 de juros por semestre. No IPCA+, os juros começam em R$ 254,95 e chegam a R$ 370,06 no último semestre, com o principal corrigido para R$ 14.802,44. O fluxo final inclui a devolução do principal: R$ 10.500,00 no prefixado e R$ 15.172,50 no IPCA+.
| Anos | Principal | Juros | Fluxo de Caixa |
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| Anos | Principal | Juros | Fluxo de Caixa |
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Fonte: Ágora Investimentos.
Já o título prefixado costuma ser mais interessante para quem busca gerar renda ou travar uma taxa elevada por um determinado período. Como os juros são conhecidos desde o início, o fluxo de rendimento tende a ser mais alto no curto prazo. Por outro lado, o valor nominal investido não recebe correção inflacionária. Em outras palavras, investindo R$ 10 mil, após 5 anos teríamos os mesmos R$ 10 mil, mas com um poder de compra menor.
Um título IPCA+ funciona como uma proteção do patrimônio: além dos juros contratados, o valor investido é corrigido pela inflação durante todo o período da aplicação. Isso significa que o capital cresce junto com o aumento dos preços da economia, ajudando a preservar o poder de compra ao longo dos anos.
1.6Nossa visão
O cenário continua favorável para a renda fixa. Ainda enxergamos espaço para um fechamento adicional da curva de juros à medida que os efeitos defasados do longo período de juros elevados continuem desacelerando a economia. Soma-se a isso a expectativa de avanços nos ajustes fiscais, que podem contribuir para a redução dos prêmios de risco exigidos pelo mercado. Ao mesmo tempo, a recente abertura dos spreads criou oportunidades interessantes no crédito privado, especialmente em títulos de alta qualidade. Por serem mais líquidos, esses papéis foram os que mais rapidamente incorporaram o aumento da aversão a risco e, hoje, oferecem prêmios bastante atrativos. Nesse contexto, acreditamos que a melhor relação entre risco e retorno está nos ativos de maior qualidade, que combinam fundamentos sólidos com taxas acima de suas médias históricas, sem a necessidade de aumentar significativamente o risco de crédito da carteira.
Na próxima seção, confira nossa curadoria, com alguns títulos em destaque acompanhados de uma análise breve de cada emissor.